Tentar garantir um estado manso e pacífico de espírito, tomando-se o sentido das coisas apenas pela sua utilidade prática, é no mínimo reduzir o mundo a uma verdade hermética e arrogante, onde as idéias, fatos e pessoas são só consideradas como tais se se prestam a ser a mais imediata e necessária solução do seu problema.
Me incomoda muito ouvir alguém reduzir outro àquele animal menos corpulento que o cavalo, de orelhas longas, fruto híbrido resultante do cruzamento da égua com o jumento, só porque não correspondeu às suas expectativas de competência. Pode até ser que a pessoa seja desprovida de uma faculdade de entender, compreender, de resolver situações e, coitado do pobre do animal que nada tem a haver com essa história, ser digno de uma bela de uma admoestação por conta de seu despraparo. No entanto, o que me refiro, nesse caso, está relacionado a algo nefasto, a uma capacidade humana destrutiva que se traduz na forma de enxergar e vislumbrar o 'ser' apenas como uma coisa que serve à satifação de necessidades pessoais e acaba tranformando-o num mero instrumento, o "coisifica".
Acredito que reside nesse contexto a fonte daqueles males que nos são tão conhecidos, proporcionados por uma busca de paz que não visa o bem de todos, mas de um, alguns ou de uma coletividade, e que podem estar muitas vezes revestidos de uma situação aparentemente inofensiva, mas que nascem igualmente das mesmas raizes: a da intolerância, da falta de entendimento e da indiferença.
Sendo assim, penso que àqueles que, na tentativa de fazerem prevalecer suas vontades, se utilizam dos outros usando-os como meros instrumentos ou, mesmo egoisticamente, vivem numa cegueira intransiente, pois são guiados pela "lógica de que as idéias e atos de qualquer pessoa só são verdadeiros" se possuem algum efeito prático, deva ser utilizado o adjetivo "burro", que precisa de cabresto e de abas na visão para ser conduzido.


