Tentar garantir um estado manso e pacífico de espírito, tomando-se o sentido das coisas apenas pela sua utilidade prática, é no mínimo reduzir o mundo a uma verdade hermética e arrogante, onde as idéias, fatos e pessoas são só consideradas como tais se se prestam a ser a mais imediata e necessária solução do seu problema.
Me incomoda muito ouvir alguém reduzir outro àquele animal menos corpulento que o cavalo, de orelhas longas, fruto híbrido resultante do cruzamento da égua com o jumento, só porque não correspondeu às suas expectativas de competência. Pode até ser que a pessoa seja desprovida de uma faculdade de entender, compreender, de resolver situações e, coitado do pobre do animal que nada tem a haver com essa história, ser digno de uma bela de uma admoestação por conta de seu despraparo. No entanto, o que me refiro, nesse caso, está relacionado a algo nefasto, a uma capacidade humana destrutiva que se traduz na forma de enxergar e vislumbrar o 'ser' apenas como uma coisa que serve à satifação de necessidades pessoais e acaba tranformando-o num mero instrumento, o "coisifica".
Acredito que reside nesse contexto a fonte daqueles males que nos são tão conhecidos, proporcionados por uma busca de paz que não visa o bem de todos, mas de um, alguns ou de uma coletividade, e que podem estar muitas vezes revestidos de uma situação aparentemente inofensiva, mas que nascem igualmente das mesmas raizes: a da intolerância, da falta de entendimento e da indiferença.
Sendo assim, penso que àqueles que, na tentativa de fazerem prevalecer suas vontades, se utilizam dos outros usando-os como meros instrumentos ou, mesmo egoisticamente, vivem numa cegueira intransiente, pois são guiados pela "lógica de que as idéias e atos de qualquer pessoa só são verdadeiros" se possuem algum efeito prático, deva ser utilizado o adjetivo "burro", que precisa de cabresto e de abas na visão para ser conduzido.

3 comentários:
Isso me fez lembrar de um trecho de um texto de Guy de Maupassant (Carta de um Louco):
"(...) o acordo das crenças não resulta senão da similitude dos orgãos humanos, e as divergências de opinião não provêm senão de ligeiras diferenças de funcionamento dos nossos filamentos nervosos."
Ou talvez as divergências residam na não aceitação dessas diferenças, levando cada um a agir conforme, e exclusimente, seus próprios interesses.
Muito bem dito e colocado, Flavinha.
Um tanto utópico da minha parte falar de uma construção sólida de valores a partir da eliminação das diferenças, quando elas são orgânicas do nosso meio e no máximo podem ser amenizadas. Quem não age segundo seus propósitos e interesses? Mas concordo com a afirmação de que talvez o caos de hoje seja fruto, como tu disseste, da não aceitação dessas diferenças, na maioria das vezes, no âmbito mais familiar e restrito das nossas relações: são os pequenos tratos do dia-a-dia.
Concordo com Flavinha!
Mas, não consigo crer que algum dia seja possível separar a idéia e o fato de que as divergências se originam da não aceitação das diferenças.
Afinal, o que seria das relações sociais sem toda essa diversidade de personalidades, relações, maneiras de agir, viver e conviver?!
Claro, que o ideal era que a aceitação dessa diversidade fosse mais, digamos, amena nos tratos do dia-a-dia (como disse Rafael),mas confesso, ainda bem que existe essa diversidade! Pois ela me dá a oportunidade de descobrir, optar, escolher e buscar o melhor caminho, a melhor maneira de agir com as pessoas ao meu redor, mesmo que para que isso ocorra eu tenha que muitas vezes errar e me redimir.
:)
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